PunkYoga #75: Lutando contra algoritmos assassinos
7 passos práticos e 1 filosófico para largar o vício nas redes sociais
Tem uma cena no filme Inverno em Sokcho que eu achei muito bonita. Na história, uma jovem sul-coreana que trabalha em uma pousada fica encantada com um cartunista francês que visita sua cidade no inverno em busca de inspiração.
Uma hora, o francês pede pra conhecer a cidade através dos olhos da moça. Ela prontamente o leva para passear, e vai até um ponto de observação de onde dá pra ver formações rochosas belíssimas. Lá, ela aponta para uma montanha pontuda e diz que ali claramente se vê um peixe voador. O escritor não se convence da clareza. Ela explica que o sonho daquele peixe é voar para além das nuvens. Mas o animal está preso naquele lugar. Então, nas manhãs da primavera, quando o vale todo fica coberto por neblina, o peixe tem a sensação de estar voando alto. É por isso que a primavera é sua estação preferida.
Essa pequena história é completamente inútil para o arco geral do filme. Também é completamente dispensável para a minha vida e, imagino, para a sua. Mas desde que eu a ouvi, não consegui parar de pensar nela como uma joia frágil que eu preciso segurar com as duas mãos para não quebrar. É admirável a capacidade que o ser humano tem de criar sentido e trazer sensibilidade para uma pedra em formato de piroca.
Fico pensando no tempo que a primeira pessoa teve que passar lá, observando aquele lugar, para conseguir ouvir essa história, que é contada em silêncio ao longo dos anos pela própria natureza.
Um tempo de contemplação que hoje foi sugado por uma tela preta.
Eu juro que não queria fazer um post sobre como as redes sociais estão fodendo com o nosso cérebro e a nossa vida, mas parece que você caiu em uma armadilha: eu vou fazer um post sobre como as redes sociais estão fodendo com o nosso cérebro e a nossa vida.
Tenho certeza absoluta que a internet não precisa de mais um texto alertando para a deterioração mental causada pelas empresas do Vale do Silício e sobre o prazer de abandonar as redes — sinto que esse questionamento é crescente e inevitável —, mas duas coisas me forçaram a escrever sobre o tema:
Me deparei com esse estudo mostrando que um detox de redes sociais de uma semana em jovens adultos trouxe melhora para sintomas de depressão e ansiedade.
Li esse artigo do jornalista G. Elliott Morris explicando por que ele abandonou o uso de redes sociais e como fez para conseguir isso.
Para entender a gaiola das loucas em que nos metemos, o Morris diz que, primeiro, a gente precisa entender como as redes sociais se transformaram em antissociais: basicamente, desde 2016, quando empresas como o Twitter deixaram de exibir um feed cronológico e passaram a mostrar recomendações de algortimos — o que foi adotado também pelo Instagram, TikTok e, inclusive, o nosso querido Substack.
Não parece de todo mal consumir conteúdos que tenham a ver com as coisas que você curte. Mas essa mudança, em último caso, foi o que nos levou à (1) polarização e formação de câmaras de eco; (2) estímulo à violência política; (3) riscos à saúde mental; e (4) redução da capacidade de pensamento crítico, uma maneira elegante de dizer que ficamos burros.
Nesse cenário tresloucado, me diz, quem é que vai ficar vendo peixe em montanha?
No artigo, o Morris detalha cada um desses pontos e eu vou parafrasear aqui porque, apesar de não ter nenhuma novidade muito grande, a desgraça ganha outra dimensão quanto aparece junta e de forma cronológica.
(1) A começar pela lembrança de que o algoritmo não mostra necessariamente o que você gosta, mas ao que você reage.
O sociólogo Chris Bail escreveu um livro falando que as redes sociais são como um prisma, que distorce a realidade, assim como um prisma distorce a luz. Só que, diferente do prisma bonito do Pink Floyd, a realidade que sai das redes sociais é bem menos colorida. Na verdade, ela é mais raivosa, negativa e ideologicamente polarizada.
É aquela velha história, né, alguém posta uma coisa muito babaca e ultrajante, outra pessoa vai lá e faz um print comentando de forma positiva ou negativa, um milhão de pessoas engaja e o algoritmo entende que esse é um conteúdo relevante a ser recomendado. Pra quem não sabe, foi assim que o Brasil elegeu um asno fascista pra presidência.
“As redes sociais não necessariamente mudam sua ideologia, mas distorcem sua percepção sobre o que os outros pensam. Isso acaba acirrando sua oposição aos supostos adversários políticos. Quanto mais tempo você passa online, maior a chance de concluir que ‘todo mundo do outro lado é maluco’, já que são as vozes mais extremas — e virais — que dominam seus feeds.”
(2) Essa distorção da realidade cria todo um ambiente propício para a violência política. Afinal, se todo mundo do outro lado é maluco, alguém precisa deter esses animais selvagens. E, uma vez radicalizado, não vai ser difícil achar um grupo online que te acolha — tema que o podcast Calma Urgente tratou muito bem.
(3) O Mark Zuckerberg sabe da merda que fez. Tanto sabe que mandou cancelar um estudo de 2020 que mostrava que um detox de Facebook de uma semana fazia as pessoas se sentirem menos deprimidas, ansiosas e solitárias.
Veja bem, 2020 foi quando rolou o boom das lives no início da pandemia. De lá pra cá, as pessoas ficaram mais alucicrazy ainda com o uso do Instagram e outras redes. Por isso, achei interessante quando um estudo de 2025 mostrou exatamente a mesma coisa: que um detox de uma semana de redes sociais trouxe melhoras para sintomas de depressão e ansiedade.
Os pesquisadores disseram que os melhores resultados foram observados nas pessoas que mais sofriam com esses transtornos. Segundo eles:
“Especulamos que as melhorias observadas durante o detox estavam mais associadas à redução de oportunidades para o engajamento problemático, como a comparação social negativa e o uso viciante, em vez de decorrerem da redução no tempo total de tela”.
Essa comparação social negativa, ou engajamento problemático, como eles falam, transforma até hábitos saudáveis em comportamentos nocivos.
No Medscape, publicamos esses dias uma reportagem dizendo que: “A exposição constante a conteúdo sobre estilo de vida fitness ou corpos hipermusculosos em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube sem dúvida aumenta a probabilidade de um indivíduo desenvolver sintomas de vigorexia e transtorno dismórfico. Essa comparação constante baseada em avaliações sociais e medida em ‘curtidas’ alimenta a insatisfação corporal na pessoa afetada”.
Um pesadelo que eu tenho é alguém abrir o meu instagram e ver que só tem foto de homem sem camisa nas recomendações. Culpa minha, eu sei, quem viciou ele foi eu. Não me julguem por ser gay. A questão é que, além de tudo, o crossfit é o meu esporte de escolha, e eu sigo um monte de treinador. Logo, entre memes de academia e caras fazendo muscle-up sem cueca, não é raro me deparar com a sensação de que estou me exercitando pouco e que minhas pernas e meus braços estão finos demais.
Mas eu não sou educador físico, eu não fico o dia inteiro malhando, cuidando da alimentação e fazendo publi de whey. A comparação é injusta demais, eu sei disso, mas meu cérebro parece esquecer às vezes...
(4) E tem a questão cognitiva também. Parece que me sinto cada vez mais ansioso, angustiado, com a sensação de que estou atrasado, sempre devendo alguma coisa, e com a capacidade de foco de um peixe dourado. Não consigo ler uma página de livro inteira. E quando sento pra escrever preciso lutar com mil macacos voadores dentro da minha mente.
Por isso, há um tempo, decidi — não excluir, mas — usar bem menos as redes sociais. E fiquei feliz com algumas dicas que o Morris trouxe no texto dele. Algumas óbvias, tipo:
desligar as notificações;
reservar um horário certo pra scrollar;
apagar os aplicativos e acessar as redes sociais só no desktop;
E a que eu achei mais inusitada: tratar seu celular como um telefone de fio.
O Morris diz que deixa o aparelho preso no carregador, que fica na tomada da cozinha, e vai até ele toda vez que precisa usá-lo.
Eu ainda não faço nada disso, mas:
deixei de usar o celular no banheiro, por exemplo, e, com isso, já li dois contos do Edgar Allan Poe;
também só pego o aparelho de manhã depois de escovar os dentes;
não entro em nenhuma rede social depois das 21h.
Assistir a Inverno em Sokcho faz parte desse esforço de tentar alimentar meu cérebro com algo que tenha mais de 15 segundos. Assisti ao filme em três partes, é verdade, mas assisti.
Pra mim, o mais pérfido nas redes sociais é que sua lógica de vício existe por uma única razão: nos fazer consumir cada vez mais. Foda-se que uma geração inteira vai desenvolver transtorno de ansiedade generalizada.
E eles fazem isso da forma mais sorrateira possível.
Igual a tipografia do filme A substância.
No artigo O que é mais assustador do que uma fonte sem serifas?, o designer Valter Costa, da Plau, questiona: por que usar uma fonte tão limpinha e objetiva em um filme que tem orelhas caindo, partes do corpo explodindo, um corpo se multiplicando em dois e olhos com múltiplas pupilas?
A fonte é um elemento excencial de terror na história do filme, não só no cartaz. O Valter explica que, apesar dela parecer muito “direto ao ponto”, ela não é tão neutra e ingênua assim. Ela é sonsa! Se faz de asséptica, mas se você reparar bem, tem assimetrias e algum desequilíbrio no peso das letras.
“Ela causa desconforto por representar uma empresa muito tecnológica, ‘clean’ e desumana ao mesmo tempo. (…) Ou seja, aqui o que assusta não é o sangue jorrando, é a frieza. É a possibilidade de alguém destruir sua vida sem ser responsabilizado por isso, e ainda saindo como o ‘limpinho’ da história.”
A questão, para o Valter, é que “o fato de o terror não aparecer muito na nossa cara não quer dizer que ele não esteja à espreita, se manifestando de outras formas”.
E é exatamente isso o que as redes sociais fazem. Te prometem a glória e te entregam seu cérebro transformado em uma massa amorfa e derretida.
Não quero soar apocalíptico — eu nem falei nada de IA ainda —, mas é que na minha câmara de eco não se fala em outra coisa. Cada vez mais, usamos as redes sociais não porque queremos, mas porque estamos acorrentados a elas, sem nem perceber.
Nesse artigo, o Žižek diz que “a forma mais perigosa de falta de liberdade é aquela que vivenciamos como liberdade”, ou…
“como Goethe disse dois séculos atrás: ‘Ninguém é mais irremediavelmente escravizado do que aqueles que acreditam falsamente ser livres’. Será que um libertário, que trabalha para destruir a densa rede social de costumes da qual depende para prosperar, é realmente livre?”
Ele apela pro Sócrates, dizendo que o método dele era ficar repetindo a pergunta “o que, exatamente, você quer dizer por…?” sobre qualquer coisa que quisesse entender, tipo virtude, verdade, Deus, e por aí vai.
“Pensar significa que, diante da crise do clima, por exemplo, não devemos apenas buscar salvar a natureza, mas também nos perguntar o que natureza significa hoje. Com o avanço da IA, não basta questionar se as máquinas conseguem pensar — é preciso também perguntar o que, afinal, é o pensamento humano”, escreveu o Žižek.
Veja bem, não quero julgar a forma como ninguém escolhe usar suas redes sociais, esse texto não é pra isso, eu mesmo trabalho com elas e faço meus videos. A questão é: a gente tem escolha?
Talvez, entre uma scrollada e outra, valha a pena desprender a atenção da tela, olhar pro teto e se questionar: o que significa escolha quando colocamos ela à prova de um produto que foi desenhado especificamente para engolir o seu poder de decisão e cuspir anúncios da Shein? O que significa liberdade quando um robô já sabe do que você vai gostar antes mesmo de você? E o que significa sonhar quando somos peixes voadores que não conseguem voar?
O fim.
Posfácio
Não deixei transparecer muito no texto, mas a real é que eu vivo em conflito com esse negócio de redes sociais. Porque, além do lado consumidor, eu também estou do lado criador. Ao mesmo tempo em que eu gosto de criar conteúdo, gravar vídeos, pensar em pautas e criar roteiros, eu acho extremamente desrespeitosa a forma como as redes tratam quem entrega trabalho de graça pra elas.
Eles mudam as regras toda hora e exigem uma quantidade de trabalho sobre-humana para que você tenha um mínimo de engajamento.
Meu amor Felipe Abílio cria conteúdo pra internet no seu canal de viajens. Acho admirável como ele não se cansa e tá sempre disposto a jogar o game das redes. É claro que isso tem um custo pra cabeça e pra vida — que eu não sei se estou tão disposto a pagar. E, com isso, meu trabalho não chega a mais pessoas. Tudo bem, é o risco que eu assumi. Mas não tem como não achar escroto ver o tanto de gente talentosa que não é valorizada.
Por isso, gosto das newsletters. Você escreve uma carta e ela chega no e-mail da pessoa — apesar do Substack querer muito copiar a paranoia das outras redes.
Além desta escalafobética e querida PunkYoga, eu também faço a curadoria da Aurora e do Índice, da editora Seiva, um trabalho que me deixa muito satisfeito; produzo a Voçoroca, do VoteLGBT, que é um escândalo queer; e ainda faço a newsletter do Ciência Psicodélica nas horas vagas.
Newsletters não vão resolver a dor do mundo, mas são uma ótima forma de lutar contra algoritmos assassinos.
Tô sendo otimista demais? Me diz o que acha e me indica as suas newsletters preferidas, eu vou adorar saber.
Vai pela sombra e fica na paz de Bowie.
Com amor & anarquia,
Nathan






É admirável a capacidade que o ser humano tem de criar sentido e trazer sensibilidade para uma pedra em formato de piroca. -> por mim o texto já valia por essa frase
Esse prisma dá uma ótima estampa de camiseta!
Eu sou a favor das newsletters para escapar do mercado oriental de anúncios que viraram as rede sociais. Sigo a Aurora e a Seiva como indicação de uma jovem simpática num stand da editora que indicou vocês. Sigo também muitas newsletters, umas 20.